Padre Cornélio Kila

Sempre preocupado com as questões sociais, Padre Cornélio se indignava com a situação da população carente, principalmente nos arredores onde morava, Bairro Anchieta, onde havia muitas crianças em condições de vulnerabilidade social. Elas não tinham o que comer, o que vestir, onde dormir, viviam ao relento, sem condição mínima de sobrevivência com dignidade h Próximo ao Colégio Arnaldo, unidade Anchieta, havia uma creche chamada “Nosso Abrigo”, onde moravam crianças que eram recolhidas das ruas ou encaminhadas pela justiça. Aos poucos, Padre Cornélio foi conhecendo de perto o trabalho que lá era desenvolvido e tornou-se um colaborador da creche e amigo das crianças e tornou-se capelão da instituição.

O convívio com os meninos da creche o ensinou que eles não eram, em nada, diferentes dos alunos do Colégio Arnaldo: a diferença estava na questão de oportunidade.

No começo de 1974, surgiu um boato de que o juizado iria transferir todas as crianças que moravam no abrigo para a FEBEM. Diante desta notícia, Padre Cornélio tomou uma atitude que mudaria para sempre a vida de alguns desses meninos: resolveu por conta própria, ficar com quatro deles sob seus cuidados. Não demorou muito para que, além dos quatro, aparecessem outros meninos mais necessitados para serem cuidados também.

E no dia 21 de julho de 1975, foi criada a Casa do Homem de Nazaré, que abrigava crianças e adolescentes em Casas-Lares. Sua primeira Casa Lar foi aberta para 10 meninos, dirigida por uma senhora, sob orientação e coordenação do próprio Padre Cornélio. O projeto cresceu com a ajuda de famílias que apadrinharam o projeto e, ao longo do tempo, foram fundadas outras unidades, abrigando aproximadamente 80 crianças e adolescentes, de ambos os sexos, com idades entre 6 e 15 anos.

Em 11 de setembro de 1992, Padre Cornélio foi homenageado na Câmara Municipal de Belo Horizonte, sendo convidado de honra e diplomado como Cidadão Honorário de Belo Horizonte pela iniciativa e reconhecimento de resultados tão positivos que ele proporcionou aos meninos que acolheu e cuidou. Nessa ocasião, ele afirmou: “Gostei de ser cidadão honorário de algum lugar, porque já estava perdendo a minha nacionalidade. No Brasil, sempre sou considerado holandês e, na Holanda, um holandês meio abrasileirado”.

Em 1997, Padre Cornélio visitou o seu país, Holanda, com a intenção de ficar definitivamente por lá, mas a saudade foi grande e, no final daquele mesmo ano, estava de volta a Belo Horizonte, com a firme decisão de seguir com a assistência na Casa do Homem de Nazaré. Desta vez, não mais como coordenador, já que transferira a função para os capuchinhos de Belo Horizonte. Permaneceu ligado como apoiador espiritual e orientador educacional.

Em 1999, Padre Cornélio reassumiu a presidência da Casa do Homem de Nazaré, função que desempenhou até 2012. Seus últimos anos de vida foram marcados por problemas de saúde que foram se agravando com o passar do tempo.

Em março de 2012, Padre Cornélio sofreu um AVC, enquanto dormia, e, ao amanhecer, entregou sua vida nas mãos de seu amigo Jesus, o Homem de Nazaré.

Em seu livro, Pingos de Esperança, Padre Cornélio se autodefine: “Eu sou o burrinho com o qual Jesus entrou em Jerusalém. Jesus queria mostrar o seu amor e o amor do Pai pelos pequenos e pobres, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados. Por isso usou um burrinho. Eu fui recalcitrante. Mas Jesus pôs a mão em cima do meu pescoço de burrinho e me acalmou, falando palavras de carinho. Então eu sentia que um pouco de seu amor pelos pequenos e pobres sobrava para mim também”.